“Risco zero” é a expectativa mais cara que uma organização pode carregar. Ernesto Kenji Igarashi, como especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, pontua que ela soa responsável, parece meta nobre, e é justamente por isso que atrapalha: quem persegue o impossível gasta recursos onde não há retorno e negligencia o que de fato pode ser controlado.
A pergunta certa nunca foi como eliminar todo risco, e sim quanto risco faz sentido aceitar. Siga a leitura e veja que é aqui que entra a gestão moderna de riscos, e onde prometer ausência total de risco não é rigor, é uma ilusão cara vendida como zelo.
Por que “risco zero” é uma promessa impossível?
Todo controle de segurança tem um custo, e esse custo cresce de forma desproporcional conforme você tenta chegar perto do zero. Reduzir o risco de 80% para 40% costuma ser relativamente barato. Ir de 5% para 1% pode custar mais do que os quatro pontos anteriores somados, e ainda assim nunca chega a zero. Existe sempre uma variável fora do seu alcance: o comportamento humano, o evento raro, a falha simultânea que nenhum plano previu.
Ernesto Kenji Igarashi nota que perseguir o zero também produz um efeito perverso. A organização investe tanto em blindar um ponto que esvazia a atenção sobre outros dez. O resultado é uma fortaleza com uma porta trancada por três fechaduras e uma janela aberta nos fundos. Distribuir proteção conforme a probabilidade e o impacto de cada ameaça rende mais do que fortificar um único ponto até a exaustão.
A decisão que quase ninguém escreve no papel
Apetite de risco é quanto de exposição uma organização decide, conscientemente, tolerar em nome de seus objetivos. Toda empresa tem um, mesmo as que nunca o formularam. A diferença é que, sem escrever, esse limite fica implícito, muda conforme o humor do gestor da vez e só aparece depois do incidente, quando alguém pergunta por que aquilo não foi tratado. Ernesto Kenji Igarashi aponta que a maioria das falhas de gestão não vem de risco desconhecido, e sim de risco conhecido que ninguém decidiu formalmente aceitar ou recusar.
O que significa apetite de risco na prática?
É o nível de risco que a organização aceita correr para alcançar seus objetivos, definido antes do incidente e por escrito. Sem esse limite explícito, cada decisão de segurança vira improviso individual em vez de política institucional.
Quando o apetite está definido, a conversa muda de qualidade, já que, em vez de discutir se um risco é “grande” ou “pequeno”, termos que cada pessoa interpreta de um jeito, a equipe compara o risco concreto com o limite que a própria organização assumiu. A decisão deixa de ser opinião e vira critério.

Escrever o apetite de risco não engessa a operação, ao contrário do que muitos temem. Ele acelera as decisões do dia a dia, porque a equipe deixa de precisar levar cada dúvida ao topo da hierarquia. Diante de uma situação nova, ela consulta o limite já acordado e resolve na hora, com respaldo. O que trava uma operação não é ter regras claras, é a ausência delas, obrigando cada pessoa a improvisar sozinha.
O que sobra depois do controle: entendendo o risco residual
Depois de aplicar todo controle viável, sempre resta um risco. Esse resíduo é o risco residual, e ele não é sinal de trabalho malfeito: é a parte da realidade que nenhum controle razoável elimina. A pergunta que a gestão madura faz não é “como zeramos isso”, mas “esse resíduo cabe dentro do que decidimos aceitar?”. Se couber, você documenta, monitora e segue. Se não cabe, você investe mais ou muda a atividade que gera o risco. Ernesto Kenji Igarashi nota que a diferença entre uma equipe madura e uma amadora aparece aqui: a madura nomeia o que sobrou, a amadora finge que não sobrou nada.
Ignorar o risco residual é o erro que mais custa caro depois. A organização instala o controle, marca a tarefa como concluída e assume mentalmente que o problema acabou. Só que o resíduo continua ali, agora invisível, porque todo mundo acredita que foi resolvido. O risco que ninguém está mais olhando é sempre mais perigoso que o risco escancarado.
Quem decide o quanto é aceitável?
Definir apetite e aceitar risco residual são decisões de alçada, não de execução. O profissional de segurança traz a análise, dimensiona o risco e apresenta as opções com seus custos. Mas a escolha de quanto tolerar pertence a quem responde pela organização, porque é essa pessoa que arca com a consequência. Tal como Ernesto Kenji Igarashi comenta, confundir esses papéis é uma das raízes mais comuns de conflito interno: o técnico não deve carregar sozinho uma decisão que é institucional.
Essa separação protege os dois lados. O gestor decide com informação em vez de intuição, e o profissional de segurança fica resguardado de ser responsabilizado por um nível de risco que ele apenas recomendou, não escolheu. Documentar quem decidiu o quê e com base em qual análise é o que transforma segurança em governança.
Segurança madura convive com incerteza
A ideia de que existe um estado final de proteção, em que nada mais pode dar errado, é reconfortante e falsa. Sistemas vivos, com pessoas dentro, mudam o tempo todo, e cada mudança abre um risco novo enquanto fecha outro. Por isso, a gestão de riscos não termina: ela cicla. Aceitar isso não é resignação.
É o que permite dormir tranquilo, sabendo que a exposição está dentro de um limite escolhido, não empurrada para debaixo do tapete. A promessa honesta da gestão moderna de riscos nunca foi eliminar o perigo. Foi torná-lo uma decisão consciente, em vez de uma surpresa.

