Tarifa adicional de 25% chega aos produtos brasileiros dias após acordo Mercosul-União Europeia impulsionar as vendas ao mercado europeu.
O governo dos Estados Unidos passou a cobrar, nesta quarta-feira, uma tarifa adicional de 25% sobre milhares de produtos brasileiros, medida que pode atingir entre US$ 7 bilhões e US$ 11 bilhões em exportações do país. A sobretaxa se soma à tarifa de 50% já aplicada desde 2025 e reacende, em plena véspera de eleições gerais, a tensão comercial entre Brasília e Washington.
Nova tarifa chega em meio a acusações de concorrência desleal
A medida foi confirmada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, depois de uma investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O órgão americano associou a nova cobrança a supostas práticas de concorrência desleal ligadas ao desmatamento no Brasil, ampliando o leque de justificativas usadas por Washington para pressionar o país ao longo do ano.
Segundo estimativas do próprio governo brasileiro, a nova tarifa deve afetar diretamente entre 18% e 20% das exportações nacionais destinadas ao mercado americano, com maior impacto sobre setores industriais de maior valor agregado. O anúncio ainda prevê uma segunda rodada de sobretaxa, de 12,5%, que deve entrar em vigor nos próximos dias, ampliando ainda mais o volume de produtos afetados.
Para o governo brasileiro, a decisão não tem lastro econômico real e representa, antes de tudo, um movimento político dentro da disputa mais ampla entre os dois países ao longo do ano.
Governo lança Brasil Soberano III em resposta
No mesmo dia em que a tarifa passou a valer, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o Plano Brasil Soberano III, um pacote de R$ 18,5 bilhões em crédito para empresas afetadas por barreiras comerciais e conflitos internacionais. Do total, R$ 13,5 bilhões devem vir do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões, de recursos próprios do BNDES.
O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a tarifa como injusta e sem fundamento durante o lançamento do programa, em Brasília, e destacou que o pacote também prevê um seguro-garantia voltado especificamente para micro e pequenas empresas. Diferente da versão emergencial lançada em 2025, a nova rodada do programa não impõe cláusula obrigatória de manutenção de empregos às empresas beneficiadas, o que dá mais flexibilidade ao uso do crédito.
Ainda segundo Alckmin, a resposta do governo passa também por ampliar o trabalho de diversificação de mercados e reposicionar produtos que perderem competitividade nos Estados Unidos, buscando novos compradores fora do mercado americano.
Diversificação de mercados já mostra resultado
Um dos argumentos usados pelo governo para defender essa estratégia é o desempenho recente do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Segundo Alckmin, as exportações brasileiras ao bloco europeu cresceram US$ 2 bilhões nos primeiros 60 dias de vigência provisória do acordo, um avanço de 12,8% nas vendas ao continente.
No mesmo período, os embarques brasileiros para os Estados Unidos caíram 13%, um sinal, segundo a equipe econômica, de que o mercado europeu já está absorvendo parte do espaço perdido nas vendas para os americanos. A avaliação do governo é que essa reorientação comercial deve continuar sendo aprofundada nos próximos meses, especialmente diante da imprevisibilidade da política tarifária americana.
Sem retaliação imediata, mas com instrumento guardado
Apesar do desgaste, o Planalto tem evitado sinalizar uma retaliação automática. O governo afirma que pretende recorrer à Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional no ano passado, mas quer primeiro ouvir os setores diretamente afetados pela tarifa antes de definir qualquer medida concreta.
Não há, até o momento, prazo definido nem indicação de quais produtos americanos poderiam ser alvo de uma eventual resposta brasileira. A avaliação predominante dentro do governo é que qualquer escalada mais dura na disputa comercial deve ficar para depois das eleições de outubro, período em que Brasília prefere manter o foco na negociação em vez do confronto direto com Washington. Ao mesmo tempo, o presidente Donald Trump ampliou sua ofensiva protecionista em outras frentes, incluindo a ameaça de tarifas de até 200% sobre medicamentos genéricos importados, o que mantém o comércio entre os dois países como um dos temas mais sensíveis do segundo semestre.

