Levantamento do Tribunal Superior Eleitoral aponta crescimento de 42,5% no eleitorado com deficiência e ampliação das seções acessíveis pelo país.
As eleições gerais de outubro vão registrar o maior contingente de eleitoras e eleitores com deficiência já contabilizado pela Justiça Eleitoral. Segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral nesta segunda-feira, 1.963.551 pessoas com algum tipo de deficiência estão aptas a votar em 2026, dentro de um universo total de 158,7 milhões de eleitores no país. O número representa um salto expressivo em relação ao pleito anterior e reacende o debate sobre inclusão e acessibilidade no processo eleitoral brasileiro.
Um salto histórico no perfil do eleitorado
Em 2022, o total de eleitores com deficiência era de 1.377.787 pessoas. Chegar a quase 2 milhões em 2026 significa um avanço de 42,5% em quatro anos, um ritmo de crescimento que supera o da população eleitoral em geral. A maior parte desse público está classificada na categoria que o TSE chama de “outros”, com 994.472 registros, o equivalente a 45,46% do total.
Na sequência aparecem os eleitores com dificuldade de locomoção, que somam 617.996 pessoas, seguidos por quem declarou deficiência visual (319.489) e deficiência auditiva (182.341). Um quinto grupo, formado por 64.851 eleitores, informou enfrentar dificuldades específicas no momento de votar. Na comparação direta com 2022, o crescimento chega a cerca de 49% entre pessoas com deficiência visual e a 54% entre as que têm deficiência auditiva, praticamente todos os grupos analisados tiveram alta, com exceção da categoria de dificuldade para o exercício do voto.
Para especialistas em direitos das pessoas com deficiência, esse aumento tem duas explicações que caminham juntas: um número real maior de eleitores com deficiência e, ao mesmo tempo, um processo mais amplo de autodeclaração, já que campanhas de conscientização e a facilidade dos canais eletrônicos têm incentivado mais pessoas a informar sua condição à Justiça Eleitoral.
Estrutura ampliada para garantir autonomia no voto
Para acompanhar esse crescimento, a Justiça Eleitoral também ampliou a rede de locais de votação preparados para receber esse público. O número de seções eleitorais principais com acessibilidade saltou de 156.296, em 2022, para 223.587 neste ano, um avanço de 43%. Essas seções ficam em prédios equipados com rampas de acesso, elevadores e trajetos livres de obstáculos físicos, pensados para dar mais autonomia a quem tem deficiência ou mobilidade reduzida.
A ampliação da estrutura não é isolada: ela acompanha um movimento mais amplo da Justiça Eleitoral de tornar o voto acessível sem depender apenas da boa vontade de cada zona eleitoral. Ao mesmo tempo, o órgão reforça que a estrutura física é só uma parte da equação, já que a experiência de votar também depende de treinamento das equipes de mesários e de recursos tecnológicos embutidos na própria urna eletrônica.
A senadora Mara Gabrilli, que é tetraplégica e atua há anos em pautas de inclusão, tem defendido publicamente a importância de medidas como essa, destacando que pessoas com deficiência costumam enfrentar obstáculos estruturais que vão muito além do dia da votação, e que ampliar a acessibilidade eleitoral é também uma forma de fortalecer a participação política desse grupo.
Recursos tecnológicos e prazo para solicitar seção acessível
Além da estrutura física, a urna eletrônica conta com uma série de recursos pensados para diferentes tipos de deficiência. Eleitores com deficiência visual podem contar com sistema de áudio, teclado em braile e identificação tátil nas teclas, além de compatibilidade com tecnologias assistivas usadas no dia a dia por essas pessoas. Segundo o TSE, esses recursos já fazem parte do equipamento padrão distribuído nas seções eleitorais.
Quem precisa de atendimento específico pode informar sua condição previamente à Justiça Eleitoral, o que ajuda a organizar a logística de cada seção com antecedência. Ainda assim, mesmo sem solicitação prévia, o eleitor pode comunicar sua necessidade diretamente à equipe no momento do atendimento, no próprio dia da votação.
Para quem quiser ou precisar votar em uma seção diferente da atual, o prazo para solicitar a transferência para um local acessível termina em 20 de agosto. O pedido pode ser feito pelos canais oficiais do TSE ou presencialmente em um cartório eleitoral, com atualização dos dados no cadastro do eleitor.
O que essa mudança representa para a democracia
Para além dos números, o crescimento do eleitorado com deficiência tem um peso simbólico importante em um ano de eleições gerais, quando estão em disputa a Presidência da República, o Congresso Nacional e os governos estaduais. Ampliar o acesso ao voto para esse público significa, na prática, ampliar a representatividade do processo eleitoral como um todo, já que cada eleitor a mais que consegue votar com autonomia reduz a distância entre o eleitorado real e o eleitorado que efetivamente participa das urnas.
A Justiça Eleitoral tem classificado a eleição de 2026 como a mais acessível da história do país, um título que só se sustenta se a estrutura anunciada funcionar como planejado em outubro. O desafio agora passa a ser logístico: garantir que as mais de 223 mil seções acessíveis estejam de fato preparadas e que os mesários saibam lidar com as diferentes demandas que vão aparecer no dia da votação.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral
Correio Braziliense
Rádio Senado

