Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, evidencia que a visão é um dos sentidos que mais influenciam a autonomia, a segurança e a qualidade de vida do idoso. Sua deterioração progressiva com o envelhecimento representa um dos fatores que mais contribuem para a perda de independência e para o aumento do risco de quedas e acidentes. Uma limitação visual não tratada compromete não apenas a segurança física do idoso, mas também sua capacidade de se comunicar, de se locomover com autonomia e de participar das atividades sociais que sustentam seu bem-estar emocional. Cuidar dos olhos é cuidar da vida inteira.
Quais são as principais condições oculares associadas ao envelhecimento?
A catarata é a condição ocular mais comum na terceira idade, caracterizada pelo opacamento progressivo do cristalino, que resulta em visão turva, sensibilidade aumentada ao brilho e dificuldade de enxergar em ambientes com pouca luz. Trata-se de uma condição altamente prevalente, potencialmente incapacitante e com tratamento cirúrgico eficaz, seguro e com excelentes resultados funcionais, inclusive em idosos muito avançados em idade. A barreira mais comum ao tratamento não é a cirurgia em si, mas o acesso ao diagnóstico e ao serviço especializado, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros.
O glaucoma, a degeneração macular relacionada à idade e a retinopatia diabética são outras condições oculares prevalentes na terceira idade que merecem rastreamento sistemático. O glaucoma, em particular, é traiçoeiro por progredir de forma silenciosa, comprometendo gradualmente o campo visual periférico sem que o paciente perceba até que a perda já seja significativa e irreversível. Yuri Silva Portela explica que o diagnóstico precoce dessas condições depende de avaliações oftalmológicas regulares que, infelizmente, ainda estão fora do alcance de uma parcela expressiva da população idosa brasileira.

Como a perda visual afeta a autonomia e a segurança do idoso?
A visão comprometida afeta a capacidade do idoso de realizar tarefas cotidianas como ler, cozinhar, tomar medicamentos de forma correta e se locomover com segurança dentro e fora de casa. A dificuldade de enxergar degraus, obstáculos no chão e irregularidades no calçamento aumenta significativamente o risco de quedas, que, por sua vez, podem resultar em fraturas graves e longos períodos de reabilitação. O idoso com visão comprometida, que restringe suas saídas de casa por medo de acidentes, entra em um ciclo de isolamento e sedentarismo, o que afeta todas as dimensões de sua saúde.
O impacto sobre a saúde mental também é expressivo. A perda de autonomia associada à limitação visual frequentemente alimenta sentimentos de frustração, vergonha e dependência que contribuem para o desenvolvimento de depressão e ansiedade. Yuri Silva Portela analisa que, nas comunidades do sertão cearense atendidas pelo Humaniza Sertão, a limitação visual não tratada é um fator de vulnerabilidade adicional em um contexto já marcado por múltiplos desafios, e que intervenções simples como a correção de erros refrativos com óculos adequados podem produzir transformações significativas na qualidade de vida do idoso.
Como o cuidado geriátrico integra a saúde ocular?
O geriatra não substitui o oftalmologista, mas desempenha papel fundamental na identificação de idosos com risco de comprometimento visual e no encaminhamento oportuno para avaliação especializada. A avaliação da acuidade visual com testes simples, a identificação de fatores de risco como diabetes e hipertensão que aceleram o dano ocular e a revisão de medicamentos que podem afetar a visão fazem parte do protocolo geriátrico que o doutor Yuri Silva Portela aplica em sua prática clínica e nas ações do Humaniza Sertão.
A orientação de famílias e cuidadores sobre adaptações ambientais que compensam a limitação visual do idoso, como iluminação adequada, contraste visual em degraus e superfícies e organização dos espaços para reduzir obstáculos, é uma intervenção prática de baixo custo e alto impacto que complementa o tratamento oftalmológico. Cuidar da visão do idoso é um investimento em sua segurança, sua autonomia e sua participação ativa na vida que ainda tem muito a oferecer.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

