Os investimentos do Governo de MG em ações relacionadas aos impactos das chuvas registraram queda superior a 95% nos últimos três anos, segundo dados divulgados em reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo. A redução drástica dos recursos destinados à prevenção e resposta a desastres naturais levanta questionamentos sobre a capacidade do estado de enfrentar eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes. Ao longo deste artigo, serão analisados os reflexos dessa retração orçamentária, o contexto climático atual e os riscos concretos para a população mineira.
Minas Gerais historicamente convive com períodos intensos de chuva, que provocam enchentes, deslizamentos de terra e prejuízos sociais e econômicos expressivos. Municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte, da Zona da Mata e do Vale do Rio Doce estão entre os mais afetados em temporadas chuvosas. Em cenários como esses, o investimento público não é apenas uma questão administrativa, mas uma política estratégica de proteção à vida.
A redução de mais de 95% nos recursos aplicados em ações de mitigação, prevenção e recuperação de danos representa uma mudança significativa de prioridade orçamentária. Projetos de contenção de encostas, drenagem urbana, manutenção de barragens, monitoramento de áreas de risco e estruturação da Defesa Civil dependem diretamente de aporte financeiro contínuo. Sem planejamento estável, o estado tende a atuar apenas de forma emergencial, o que geralmente custa mais caro e produz resultados menos eficazes.
É importante compreender que investir em prevenção climática não gera visibilidade política imediata. Obras subterrâneas de drenagem ou estudos técnicos de mapeamento de risco raramente se traduzem em capital eleitoral. Entretanto, a ausência dessas ações aparece de forma contundente quando ocorrem tragédias. A cada verão, famílias perdem casas, comerciantes contabilizam prejuízos e o poder público mobiliza recursos extraordinários para reconstrução.
O debate sobre os investimentos do Governo de MG contra as chuvas precisa ser contextualizado dentro de uma realidade maior. O Brasil enfrenta mudanças climáticas que intensificam eventos extremos, com chuvas concentradas em curtos períodos e volumes superiores à média histórica. Minas Gerais, por sua geografia montanhosa e áreas urbanas densamente ocupadas em encostas, torna-se ainda mais vulnerável.
Quando os recursos para prevenção diminuem drasticamente, cresce a dependência de repasses federais e de decretos de calamidade pública. Essa dinâmica fragiliza a autonomia estadual e expõe municípios menores, que muitas vezes não possuem capacidade técnica para elaborar projetos estruturais de grande porte. A falta de investimentos contínuos cria um ciclo de improvisação, no qual o planejamento dá lugar à reação tardia.
Outro ponto relevante envolve a desigualdade social. Áreas mais pobres costumam concentrar moradias em locais de risco, como margens de córregos e encostas íngremes. A redução de investimentos em contenção e urbanização amplia a exposição dessas populações a desastres. Nesse cenário, a política orçamentária deixa de ser apenas uma decisão técnica e passa a ter implicações diretas sobre justiça social e direito à moradia segura.
Do ponto de vista econômico, a lógica da economia preventiva é clara. Cada real investido em prevenção pode evitar gastos muito maiores em reconstrução, indenizações e assistência emergencial. Além disso, eventos recorrentes de enchentes e deslizamentos impactam a atividade produtiva, o comércio e a arrecadação tributária. A instabilidade climática sem infraestrutura adequada compromete o ambiente de negócios e afeta o desenvolvimento regional.
Defensores da redução de gastos podem argumentar que ajustes fiscais são necessários para equilibrar as contas públicas. No entanto, a gestão responsável do orçamento não deveria significar negligência em áreas estratégicas. A questão central não é apenas quanto se gasta, mas onde e com qual visão de longo prazo. Em um estado com histórico de tragédias causadas por chuvas intensas, cortar quase integralmente os recursos destinados à prevenção soa como uma aposta arriscada.
É fundamental que haja transparência e planejamento plurianual para ações de adaptação climática. Programas de drenagem urbana, reassentamento de famílias em áreas seguras, fortalecimento da Defesa Civil e sistemas de alerta precoce precisam ser encarados como políticas permanentes de Estado, não como iniciativas pontuais condicionadas ao calendário político.
A sociedade civil, órgãos de controle e o Legislativo estadual têm papel relevante na fiscalização e na cobrança por prioridades coerentes com a realidade climática. O debate público deve ir além da polarização e se concentrar em dados, impactos e soluções viáveis. Investimentos estruturais podem não render manchetes diárias, mas são eles que evitam tragédias silenciosas.
A queda de 95% nos investimentos do Governo de MG em ações relacionadas às chuvas é um indicador que merece atenção imediata. Em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes, reduzir a prevenção equivale a aumentar o risco. Minas Gerais precisa decidir se prefere continuar reagindo a desastres ou assumir uma postura estratégica, baseada em planejamento, responsabilidade fiscal inteligente e compromisso com a proteção da população.
Autor: Diego Velázquez

