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Início » Cientistas conseguem gerar emaranhamento quântico usando luz solar em experimento inédito
Tecnologia

Cientistas conseguem gerar emaranhamento quântico usando luz solar em experimento inédito

Aaron NorstonePor Aaron Norstoneagosto 19, 2026Nenhum comentário

Experimento transforma luz natural em pares de fótons emaranhados e aponta novas possibilidades para comunicações, sensores e tecnologias quânticas mais eficientes.

Cientistas demonstraram pela primeira vez que a própria luz do Sol pode ser utilizada diretamente para gerar fótons emaranhados, um dos recursos fundamentais das tecnologias quânticas. O trabalho foi conduzido por pesquisadores ligados à Universidade de Ottawa, no Canadá, e ao Instituto Max Planck para a Ciência da Luz, na Alemanha, e publicado na revista científica Optica. No experimento, os pesquisadores concentraram a luz solar e a direcionaram para um cristal não linear, obtendo pares de fótons com elevado grau de emaranhamento. A demonstração ganhou nova repercussão nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, ao ser destacada por veículos internacionais de ciência e tecnologia. (Instituto Max Planck de Ciência da Luz)

A descoberta chama atenção porque experimentos desse tipo normalmente dependem de lasers altamente controlados para produzir os estados quânticos necessários. A luz solar, por outro lado, é uma fonte térmica, naturalmente menos coerente e muito mais difícil de controlar. Mesmo diante dessas limitações, a equipe conseguiu obter emaranhamento com fidelidade próxima de 94%, resultado considerado comparável, em determinados aspectos, ao alcançado por sistemas baseados em laser. A experiência não significa que a luz solar substituirá imediatamente os equipamentos convencionais, mas mostra que fontes naturais podem desempenhar um papel muito maior no desenvolvimento de futuras tecnologias quânticas. (ScienceDaily)

Como os cientistas conseguiram criar emaranhamento com a luz do Sol?

O principal desafio estava em transformar uma fonte de iluminação extremamente ampla e variável em luz suficientemente concentrada para alimentar o experimento. Os pesquisadores utilizaram uma grande lente de Fresnel para coletar a radiação solar e um concentrador especialmente desenvolvido para direcioná-la para uma fibra óptica muito fina. A luz concentrada foi então encaminhada para um cristal não linear, componente responsável por produzir os pares de fótons utilizados no experimento. O sistema precisou ser projetado para aproveitar uma fonte natural cuja intensidade e características são muito menos previsíveis do que as de um laser instalado em laboratório. (Moneycontrol)

Dentro do cristal ocorre um processo conhecido como conversão paramétrica descendente espontânea, ou SPDC. Nesse fenômeno, a energia da luz incidente pode gerar pares de fótons com propriedades quânticas correlacionadas. O princípio já é amplamente utilizado em laboratórios de óptica quântica, mas tradicionalmente lasers fornecem a energia necessária porque são fontes altamente controláveis. O avanço da nova pesquisa está justamente em mostrar experimentalmente que a luz solar concentrada também pode alimentar esse processo e produzir estados genuinamente emaranhados, eliminando a necessidade de converter inicialmente eletricidade em luz laser para realizar essa etapa específica. (Instituto Max Planck de Ciência da Luz)

Os resultados foram além da simples detecção de pares de partículas. De acordo com o Instituto Max Planck, os fótons produzidos apresentaram fidelidade de quase 94% em relação a um estado ideal de emaranhamento. Os pesquisadores também observaram correlações capazes de violar uma desigualdade de Bell, um teste importante porque demonstra que o comportamento observado não pode ser explicado adequadamente por modelos clássicos de física. Em outras palavras, o experimento forneceu evidências de que os pares gerados a partir da energia da luz solar apresentavam efetivamente propriedades de emaranhamento quântico. (Instituto Max Planck de Ciência da Luz)

Por que usar luz solar pode ser importante para tecnologias quânticas?

Uma possível vantagem está relacionada ao consumo de energia e à infraestrutura necessária para determinadas aplicações. Sistemas convencionais de geração de fótons emaranhados utilizam equipamentos elétricos para produzir e controlar lasers, acrescentando componentes e consumo energético ao conjunto. Ao empregar diretamente a radiação solar, parte dessa cadeia pode ser eliminada. O pesquisador Cheng Li explicou à Scientific American que a abordagem remove a etapa de conversão entre eletricidade e luz para a geração do emaranhamento, aproveitando diretamente a energia luminosa disponível. Isso pode ser particularmente interessante em aplicações nas quais peso, consumo elétrico e complexidade representam limitações importantes. (Scientific American)

Uma das possibilidades discutidas pelos pesquisadores envolve sistemas espaciais. Satélites destinados a experimentos e comunicações quânticas precisam carregar equipamentos capazes de gerar ou manipular estados quânticos, enquanto simultaneamente enfrentam restrições severas de energia, tamanho e massa. Como a luz solar está abundantemente disponível no espaço, uma tecnologia capaz de aproveitá-la diretamente poderia, em princípio, contribuir para sistemas mais eficientes. Essa possibilidade ainda precisa passar por muito desenvolvimento antes de resultar em equipamentos comerciais ou redes operacionais, mas o experimento demonstra que a ideia possui uma base física verificável. (Moneycontrol)

O trabalho também pode contribuir para pesquisas sobre comunicação quântica segura. Sistemas desse tipo exploram propriedades da mecânica quântica para distribuir informações ou chaves criptográficas de maneira que tentativas de interceptação possam ser detectadas. Fótons emaranhados são um recurso importante em várias arquiteturas de redes quânticas. Caso métodos alimentados por fontes naturais se tornem suficientemente eficientes, estáveis e compactos, eles poderiam complementar outras tecnologias utilizadas para criar futuras redes quânticas terrestres ou espaciais. Por enquanto, entretanto, a descoberta deve ser interpretada como uma demonstração científica e não como uma solução pronta para substituir as tecnologias de comunicação atuais. (ScienceDaily)

O que ainda precisa acontecer para a descoberta chegar ao cotidiano?

A principal distância entre o experimento e uma aplicação comercial está na eficiência e na confiabilidade. A luz solar varia de acordo com condições atmosféricas, horário, localização e orientação do sistema, enquanto lasers podem fornecer iluminação controlada durante períodos prolongados. Para transformar a abordagem em uma tecnologia prática, pesquisadores precisarão desenvolver métodos capazes de lidar com essas variações e produzir fótons emaranhados de maneira previsível. Também será necessário miniaturizar componentes e verificar como o sistema funciona em situações diferentes das condições cuidadosamente preparadas de um experimento científico. (Optica Publishing Group)

Outro desafio é integrar a fonte solar aos demais componentes necessários para uma rede quântica. Produzir pares emaranhados representa apenas uma parte de sistemas que também podem exigir detectores extremamente sensíveis, memórias quânticas, canais ópticos e equipamentos para controlar e interpretar os estados transmitidos. Portanto, utilizar luz solar não elimina a complexidade da infraestrutura quântica. O avanço está em demonstrar que uma etapa considerada dependente de fontes artificiais altamente controladas pode funcionar utilizando uma fonte natural, abrindo uma nova linha de investigação para engenheiros e físicos.

A descoberta também mostra como a pesquisa quântica está se diversificando. Enquanto computadores quânticos concentram grande parte da atenção pública, tecnologias de comunicação, sensores e fotônica avançam paralelamente e podem encontrar aplicações específicas antes que computadores quânticos universais se tornem comuns. A possibilidade de aproveitar diretamente a energia do Sol para produzir recursos quânticos acrescenta uma nova alternativa a esse ecossistema e pode estimular experimentos voltados a sistemas mais simples e energeticamente eficientes.

Nos próximos anos, o ponto central será descobrir se a demonstração pode ser ampliada sem perder a qualidade do emaranhamento alcançado em laboratório. Caso pesquisadores consigam aumentar a eficiência, reduzir o tamanho dos equipamentos e manter o sistema funcionando em condições reais, a luz solar poderá assumir uma função inesperada na infraestrutura quântica do futuro. O resultado atual não representa uma revolução comercial imediata, mas derruba uma barreira experimental importante: uma fonte natural, irregular e aparentemente inadequada para esse tipo de processo conseguiu produzir um recurso genuinamente quântico com qualidade elevada. (Instituto Max Planck de Ciência da Luz)

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